terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Abaporu - Tarsila do Amaral

 
Abaporu - Tarsila do Amaral

Autor: Tarsila do Amaral
Onde ver: Museu de Arte Latino- Americana de Buenos Aires, Argentina
Ano: 1928
Técnica: Óleo sobre tela
Movimento: Modernismo


Manifesto Antropofágico
Publicado na Revista Antropofagia (1928), propunha basicamente a devoração da cultura e das técnicas importadas e sua reelaboração com autonomia, transformando o produto importado em exportável. O nome do manifesto recuperava a crença indígena: os índios antropófagos comiam o inimigo, supondo que assim estavam assimilando suas qualidades.

"A idéia do manifesto surgiu quando Tarsila do Amaral , para presentear o então marido Oswald de Andrade, deu-lhe como presente de aniversário a tela Abaporu (aba = homem; poru = que come).

A intensa relação amorosa e intelectual com Oswald fez Tarsila pintar, em 1928, Abaporu (“homem que come carne humana”, em tupi). O quadro impressionou tanto Oswald que serviu como mote para o Movimento Atropofágico, nome dado a segunda fase de Tarsila, que “deglutiu” ainda mais radicalmente referências culturais estrangeiras em um ambiente brasileiro."


"Uma figura solitária, monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado num joelho, a mão sustentando a peso-pena da ‘cabecinha- minúscula’. Em frente, ‘um cacto explodindo numa flor absurda’. Quando uma de suas amigas diz que suas pinturas antropofágicas lembravam-lhe pesadelos, Tarsila então identifica a origem de sua pintura desta fase: “Só então compreendi eu mesma que havia realizado imagens subconscientes, sugeridas por histórias que ouvira quando em criança, contadas no hora de dormir pelas velhas negras da fazendo. Segui apenas numa inspiração, sem nunca prever os seus resultados.” Aquela figura monstruosa, de pés enormes, plantados no chão brasileiro ao lado de um cacto, sugeriu a Oswald de Andrade a ideia da terra, do homem nativo, selvagem, antropófago... (AMARAL, Aracy apud AZEVEDO)"

Tarsila valorizou o trabalho braçal (corpo grande) e desvalorizou o trabalho mental (cabeça pequena) na obra,pois era o trabalho braçal que tinha maior impacto na época.
Além de apresentar alguns traços surrealistas e evidenciar a preocupação de Tarsila com a estilização do desenho, a obra traz fortes características brasileiras, como as cores da bandeira nacional (verde, amarelo e azul). O pé grande da figura representa a intensa ligação do homem com a terra.


 Podemos dizer que ABAPORU é uma rê-escritura da obra "O Pensador" de RODIN (Rodin é considerado um artista obstinado pelas formas, principalmente a forma humana. “O Pensador” se transformou em verdadeiro ícone popular da imagem de um filósofo, renovando a arte da escultural no século XIX, em sua posição reflexiva, constitui-se na representação da figura humana em profunda e sincera preocupação com o seu destino).
  “Abaporu” a rê-escritura do “Pensador” não se dá apenas pela posição corporal da personagem, mas também pela estética do fragmento e do bloco. E, se juntarmos à isso a rê-escrituração de brasileiridade podemos compreender o texto por suas rê-escriturações e, não apenas por sua forma ou conteúdo como é comumente lido pelos críticos de arte e educadores.
O que nos interessa aqui é a transversalidade das relações, pois compreende-se  que o funcionamento do texto não é somente referencial, justamente por isso, aponta-se  para a re-escrituração e não para referência. Não há como dizer que Tarsila tenha usado Rodin como referência, mas, pode-se  apontar para os efeitos de sentido presentes num texto e em outro. Pois é o funcionamento do texto que nos interessa e não seu referencial. No discurso artístico a pergunta não pode ser o que o artista quis dizer, mas, como o diz, como os sentidos funcionam e produzem efeitos. Desta forma, percebe-se o funcionamento do fragmento (legado deixado por Rodin), como uma regularidade do texto de Tarsila: no fragmentos o reflexo do sol, por exemplo. A luz vem de fora, mas, as marcas estão no corpo da personagem e no cacto, reescrevendo materialmente os efeitos de exterioridade que colocam-se no texto de Rodin. No entanto, o fragmento só pode ser compreendido pelo bloco: sol abrasador no Brasil, neste caso, também reescrevendo brasileiridade. O sol funciona aqui, pela exterioridade. O que pode-se  dizer, é que não dá para fazer a leitura do sol, pela estética do fragmento, pois isso levaria a interpretação de que o sol poderia estar representado   pela flor do cacto, no centro do quadro.

A re-escrituração não é uma questão coerciva, mas a relação de produção de sentido. Por que ressalta a diferença. Tarsila não diz “O pensador”, diz “O Abaporu”. Uma personagem que reflete sobre o seu tempo e o seu tempo é de pensar – sentir a sua terra e tudo o mais que lhe constitui. Talvez, traga por meio de imagens, a discussão antropológica sobre conhecimento sensível versus conhecimento científico, mas, mesmo assim, diz sobre o conhecimento."


(Fonte: Trecho de A TESSITURA DA TEXTUALIDADE EM “ABAPORU” Nádia Régia Maffi Neckel - Doutoranda do Programa de Linguística da Universidade de Campinas (UNICAMP) ;Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Arte e Educação da Universidade do Contestado (UnC) ) .......................................................................................................                                    

Ao considerar a descrição do “Abaporu”, é possível perceber que “Antropofagia” dá continuidade ao movimento antropofágico lançado em 1928, porque, tal como na tela precursora( A Negra) dessa fase das artes brasileiras, pode-se ler  na obra de 1929:
* No plano temático: a ausência de recalques, de Freud e, em especial, da “vergonha de ficar pelado”, aspecto notável na nudez primitiva, espontânea das personagens;
* no plano das formas e da composição das imagens: o retrato de cactos e folhas de bananeira, bem nacionais; formas distorcidas, que remetem a vanguardas europeias (Cubismo e Expressionismo).

fonte:http://artefontedeconhecimento.blogspot.com.br

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Abaporu - Tarsila do Amaral

 
Abaporu - Tarsila do Amaral

Autor: Tarsila do Amaral
Onde ver: Museu de Arte Latino- Americana de Buenos Aires, Argentina
Ano: 1928
Técnica: Óleo sobre tela
Movimento: Modernismo


Manifesto Antropofágico
Publicado na Revista Antropofagia (1928), propunha basicamente a devoração da cultura e das técnicas importadas e sua reelaboração com autonomia, transformando o produto importado em exportável. O nome do manifesto recuperava a crença indígena: os índios antropófagos comiam o inimigo, supondo que assim estavam assimilando suas qualidades.

"A idéia do manifesto surgiu quando Tarsila do Amaral , para presentear o então marido Oswald de Andrade, deu-lhe como presente de aniversário a tela Abaporu (aba = homem; poru = que come).

A intensa relação amorosa e intelectual com Oswald fez Tarsila pintar, em 1928, Abaporu (“homem que come carne humana”, em tupi). O quadro impressionou tanto Oswald que serviu como mote para o Movimento Atropofágico, nome dado a segunda fase de Tarsila, que “deglutiu” ainda mais radicalmente referências culturais estrangeiras em um ambiente brasileiro."


"Uma figura solitária, monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado num joelho, a mão sustentando a peso-pena da ‘cabecinha- minúscula’. Em frente, ‘um cacto explodindo numa flor absurda’. Quando uma de suas amigas diz que suas pinturas antropofágicas lembravam-lhe pesadelos, Tarsila então identifica a origem de sua pintura desta fase: “Só então compreendi eu mesma que havia realizado imagens subconscientes, sugeridas por histórias que ouvira quando em criança, contadas no hora de dormir pelas velhas negras da fazendo. Segui apenas numa inspiração, sem nunca prever os seus resultados.” Aquela figura monstruosa, de pés enormes, plantados no chão brasileiro ao lado de um cacto, sugeriu a Oswald de Andrade a ideia da terra, do homem nativo, selvagem, antropófago... (AMARAL, Aracy apud AZEVEDO)"

Tarsila valorizou o trabalho braçal (corpo grande) e desvalorizou o trabalho mental (cabeça pequena) na obra,pois era o trabalho braçal que tinha maior impacto na época.
Além de apresentar alguns traços surrealistas e evidenciar a preocupação de Tarsila com a estilização do desenho, a obra traz fortes características brasileiras, como as cores da bandeira nacional (verde, amarelo e azul). O pé grande da figura representa a intensa ligação do homem com a terra.


 Podemos dizer que ABAPORU é uma rê-escritura da obra "O Pensador" de RODIN (Rodin é considerado um artista obstinado pelas formas, principalmente a forma humana. “O Pensador” se transformou em verdadeiro ícone popular da imagem de um filósofo, renovando a arte da escultural no século XIX, em sua posição reflexiva, constitui-se na representação da figura humana em profunda e sincera preocupação com o seu destino).
  “Abaporu” a rê-escritura do “Pensador” não se dá apenas pela posição corporal da personagem, mas também pela estética do fragmento e do bloco. E, se juntarmos à isso a rê-escrituração de brasileiridade podemos compreender o texto por suas rê-escriturações e, não apenas por sua forma ou conteúdo como é comumente lido pelos críticos de arte e educadores.
O que nos interessa aqui é a transversalidade das relações, pois compreende-se  que o funcionamento do texto não é somente referencial, justamente por isso, aponta-se  para a re-escrituração e não para referência. Não há como dizer que Tarsila tenha usado Rodin como referência, mas, pode-se  apontar para os efeitos de sentido presentes num texto e em outro. Pois é o funcionamento do texto que nos interessa e não seu referencial. No discurso artístico a pergunta não pode ser o que o artista quis dizer, mas, como o diz, como os sentidos funcionam e produzem efeitos. Desta forma, percebe-se o funcionamento do fragmento (legado deixado por Rodin), como uma regularidade do texto de Tarsila: no fragmentos o reflexo do sol, por exemplo. A luz vem de fora, mas, as marcas estão no corpo da personagem e no cacto, reescrevendo materialmente os efeitos de exterioridade que colocam-se no texto de Rodin. No entanto, o fragmento só pode ser compreendido pelo bloco: sol abrasador no Brasil, neste caso, também reescrevendo brasileiridade. O sol funciona aqui, pela exterioridade. O que pode-se  dizer, é que não dá para fazer a leitura do sol, pela estética do fragmento, pois isso levaria a interpretação de que o sol poderia estar representado   pela flor do cacto, no centro do quadro.

A re-escrituração não é uma questão coerciva, mas a relação de produção de sentido. Por que ressalta a diferença. Tarsila não diz “O pensador”, diz “O Abaporu”. Uma personagem que reflete sobre o seu tempo e o seu tempo é de pensar – sentir a sua terra e tudo o mais que lhe constitui. Talvez, traga por meio de imagens, a discussão antropológica sobre conhecimento sensível versus conhecimento científico, mas, mesmo assim, diz sobre o conhecimento."


(Fonte: Trecho de A TESSITURA DA TEXTUALIDADE EM “ABAPORU” Nádia Régia Maffi Neckel - Doutoranda do Programa de Linguística da Universidade de Campinas (UNICAMP) ;Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Arte e Educação da Universidade do Contestado (UnC) ) .......................................................................................................                                    

Ao considerar a descrição do “Abaporu”, é possível perceber que “Antropofagia” dá continuidade ao movimento antropofágico lançado em 1928, porque, tal como na tela precursora( A Negra) dessa fase das artes brasileiras, pode-se ler  na obra de 1929:
* No plano temático: a ausência de recalques, de Freud e, em especial, da “vergonha de ficar pelado”, aspecto notável na nudez primitiva, espontânea das personagens;
* no plano das formas e da composição das imagens: o retrato de cactos e folhas de bananeira, bem nacionais; formas distorcidas, que remetem a vanguardas europeias (Cubismo e Expressionismo).

fonte:http://artefontedeconhecimento.blogspot.com.br

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